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Isabel Soares (s/ Mário Soares)

Vive rodeada de livros, memórias, flores – nessa semana eram amarílis. Vive uma vida que é sua. Durante muito tempo viveu uma vida que se confundiu com a vida do país. Isabel Soares era a filha do oposicionista Mário Soares.

Num célebre triângulo de Entrecampos, coincidem a sua casa, o Colégio Moderno (que transformou numa instituição), e a casa dos pais. A casa dos pais já era a casa do avô, e foi uma casa por onde passaram o Manuel da Fonseca, o Carlos de Oliveira, o Pomar, o Sá Nogueira. Habituou-se a vê-los como pessoas comuns, como amigos do pai e da mãe. Passaram lá por casa outras pessoas comuns, como os amigos da política, e os empregados que fizeram parte da família. Um motorista que morreu logo depois do avô – de tristeza. Um funcionário que era agente da PIDE. Uma empregada que ainda resiste. Ela e o irmão. O irmão a quem conhecemos bem o rosto – João Soares. Viviam com a mãe que orbitava à volta do pai. O avô para quem esse filho era o mais perfeito dos príncipes.

Houve um tempo em que a vida de todos os dias era um capítulo de uma epopeia. Ainda hoje, a história desta família escreve-se como se escreve um grande romance. Um romance cujo título poderia ser “Clã Soares”.

Isabel é, segundo o pai, uma pessoa valente. Detalhar com ela o percurso daquele herói romântico – o seu pai – é recuar ao Portugal da segunda metade do século XX. Como se guardava segredo, como se visitava o pai na cadeia, como se aprendia a não chorar, como se vivia com a certeza do degredo, como se viveu a liberdade, como se viveu a aventura. Foi bonita a festa, pá – cantou Chico Buarque para a Revolução dos Cravos. Foi bonita a festa, pai – poderia dizer Isabel. É ainda uma grande festa; porque, com Soares, tudo é sempre uma explosão de vida.

O seu olhar é “embaciado pela ternura e pela admiração”. O seu olhar “não é límpido, nem isento”. E por isso, repetiu vezes sem conta: “Mas acha que isto tem mesmo interesse?”. O seu testemunho é precioso. Com ele, olhamos de novo para a nossa história. Olhamos para outra personagem. Olhamos por um outro ângulo.

 

Começo por uma frase do seu pai: “A memória é selectiva porque tem que ver com a afectividade”. A sua também o é. Mesmo assim, pergunto pela primeira memória que tem do seu pai.

Se penso nos meus dois, três anos, é a memória de um pai muito afectuoso, expansivo, de grande ternura, e muitas vezes ausente. Era a pessoa cúmplice, que enchia a casa. Quando não estava, as coisas eram mais tristes. Era a pessoa que nos ensinava a nadar, que nos atirava, com quatro ou cinco anos, para o mar da Foz do Arelho, que nos fazia não ter medo… A nossa vida girava toda à volta dele.

 

Até pela sua ausência.

Às vezes, a PIDE entrava lá por casa para fazer uma busca e levar o meu pai. Quando era mais pequena, era difícil viver com isso. As pessoas sabiam, “O pai está preso”. Mas para nós era banal e um motivo de orgulho. Íamos vê-lo sistematicamente à cadeia. Como era o motor da família, e a minha mãe viveu sempre para ele, em função dele, transmitiu-nos isso um pouco. Vivíamos também com o meu avó, que foi uma das pessoas que mais me marcaram – creio que ao meu irmão também. Era a figura masculina que estava em casa e que fazia um pouco a figura do pai. Ele vivia numa adoração do meu pai. Aquele filho era um filho que não tinha defeitos.

 

O seu pai viveu, na infância, o mesmo cenário. O pai dele esteve na clandestinidade, e por isso ausente. Num relato que faz, pungente, conta que a única vez que viu a mãe chorar foi quando o foram visitar, “Veste-te, que o teu pai vai ser deportado para os Açores”. Na sua vida, parte disto foi replicado.

A história repetiu-se. Havia a ideia, transmitida pela minha mãe e pelo meu avô, de que não se podia chorar. O que era difícil, para uma criança.

 

Não se podia chorar à frente do inspector da PIDE ou à frente de qualquer pessoa?

À frente do inspector da PIDE, da polícia… Tínhamos de nos aguentar. A minha mãe chorava muito pouco, ou defendia-se muito para não chorar à nossa frente. Tínhamos a ideia de não chorar à frente dela para ela não ficar mais em sofrimento. Não se mostravam os sentimentos. Não se mostrava a vulnerabilidade, a tristeza, o que ia na alma.

 

Foi uma aprendizagem desde cedo.

Muito cedo. Só nos libertámos disso muito mais tarde – eu, pelo menos. Na idade adulta. Só com a psicanálise e muito mais tarde me permiti isso. “Mas porque é que não hei-de chorar?” Estava de tal maneira interiorizado...

 

Exteriorizar sentimentos é diferente de permitir-se sentir. E isso, era consentido?

Isso, sim.

 

Fale-me da relação com o seu avô.

Era uma pessoa excepcional, um pedagogo. A minha avó morreu quando eu tinha três anos, e a partir dessa altura fomos viver para a casa do meu avô – tinha vagado o andar ao lado, abriu-se e ligaram-se os dois andares; ainda é hoje a casa dos meus pais. Era um homem afectuoso, com um porte de grande autoridade. Atento; se tínhamos um teste, era capaz de perder tempo connosco a ver uma matéria de História ou Geografia. Ele não tinha uma perna e, por isso, tinha dificuldade em andar; tinha um motorista que andava com ele e levava-nos a passear. Todos os domingos, religiosamente. Por Portugal inteiro; para ver um restaurante, um hotel, para nos mostrar o país, para explicar as coisas todas.

 

De que é que falavam nas viagens?

De tudo. Mas não muito de sentimentos. Era mais uma coisa pedagógica. Na nossa família falámos sempre pouco de sentimentos. Era capaz disto: eu tinha uma boa nota e ele mandava um ramo de flores a casa a dizer: “Com um beijinho de um admirador”!

 

O seu gosto pelas flores, que me disse que compra todas as semanas, para si e para os seus pais no mercado, tem que ver com isso?

Se calhar, sim. O meu avô gostava muito de flores, mas impediu que houvesse flores no funeral dele. Quando não tenho flores em casa, fico deprimida.

 

Falava do seu pai e de política? Veiculou uma imagem mitificada do seu pai?

Sim, e a minha mãe também. Para o meu avô, o meu pai estava acima de tudo. Uma vez, alguém disse que o João era muito parecido com o meu pai fisicamente, mas que era mais bonito; e o meu avô ficou ofendido com isso! Como se não fosse possível haver alguém mais bonito, mais inteligente, mais tudo… O meu pai teve isso, que foi extraordinário, e que o fez ser como é: foi profundamente amado pelo pai e pela mãe. Só o viam a ele. Tinham filhos de outro casamento, 18 anos mais velhos do que ele, e ele era o centro de todas as atenções.

 

Tinha a tranquilidade de ser amado. De ser o rei. No dizer do seu avô e da sua mãe, a superioridade do seu pai baseava-se em quê?

A minha mãe, era o olhar da paixão. Naquela fase dos sete, oito anos, o João e eu fazíamos cenas: “A mãe só pensa no pai, só faz as coisas para o pai”. Porque ia fazer um prato para o pai, porque ia fazer as coisas em função do pai. “Só o pai é que existe? Nós também existimos”. O meu avô, também. Era um amor total, de grande admiração pela coragem dele, pelo estar dele. Com ausência de sentido crítico.  

 

Quem é que teve pela primeira vez um sentido crítico em relação ao seu pai?

Em casa? Talvez o meu irmão e eu. O meu avô tinha, às vezes, um olhar irónico em relação a determinados amigos…

 

Como quando chamava “os teus camaradinhas” aos amigos comunistas…

Sim. Tinha um olhar embevecido, que nos passou. Só na adolescência tivemos necessidade de contestar o pai. Mas era difícil; porque ele, ou não estava, ou estava preso, ou estava no exílio. Não queríamos preocupar, magoar… Essa crítica era filtrada pela nossa auto-censura – “Ele está a fazer tudo isto, está a lutar…”.

 

E tinham de se aguentar.

Aguentar. A minha mãe é que apanhou com os grandes embates da adolescência.

 

Temos estado a falar do seu pai, mas viveu muitíssimo mais com a sua mãe.

Foi. Por outro lado, havia sempre muita gente em casa. Nunca estivemos os quatro sozinhos, ou os cinco; havia sempre gente que vinha almoçar, jantar, a entrar e a sair. E o mesmo se passou depois do 25 de Abril.

 

Privou com toda a gente. Deu-se com protagonistas da História. Aos seus olhos de miúda, eles eram os heróis românticos que iam mudar o mundo?, eram os amigos do pai?   

Eram os amigos do pai e os heróis românticos que iam mudar o mundo, que acreditavam que era possível mudar o mundo. Lembro-me de estar a ajudar a minha mãe a descoser as etiquetas de um casaco de tweed do meu pai, que eu achava lindíssimo… Não fazíamos perguntas: era óbvio que aquilo ia servir para alguém. Passados uns meses largos, vi uma entrevista com o Palma Inácio numa revista espanhola: era capa de revista com aquele casaco – “olha, o casaco serviu para isto”. 

 

Esse episódio introduz uma questão importante: a do valor da discrição, do segredo. Como é que lhe foi ensinado?

Quando eu dizia que não falamos de nós e dos nossos sentimentos, também é por isso. Não se podia falar, [porque] tudo podia ser aproveitado, usado.

 

Como se o mundo pudesse converter-se numa realidade hostil?

Isso foi muito negativo para mim: que fosse preciso esconder as coisas, que não se pudesse deixar sinais. Uma certa clandestinidade… Uma vez, já com 16 anos, fui com o meu pai a Espanha porque ele precisava encontrar-se com o Bispo do Porto e com o Tierno Galvan. A minha mãe não podia ir e ele levou-me a mim, para dar uma ideia de viagem familiar. Outra vez, esteve preso seis meses em Caxias e a minha mãe tinha autorização para levar a comida, todos os dias. Nessas visitas, em Caxias e no Aljube, tínhamos o papel de falar com o guarda, tentar distrair a atenção – para a minha mãe conseguir falar com ele. A maneira de lhe passar notícias era embrulhar as marmitas da comida com os jornais da véspera. E ele, aí, tinha acesso aos jornais.   

 

O seu pai conta numa entrevista que soube por essa via que Portugal tinha assinado o Pacto do Atlântico e que isso o enfureceu. “Estou aqui a lutar pela liberdade, e a América vai meter um regime fascista num pacto que é da defesa da liberdade?”. Mas no dia seguinte acordou logo bem disposto. A capacidade regenerativa é outra das suas características.

É uma força da natureza. Tem uma alegria de viver… Isso sempre nos transmitiu: o gosto de viver, o tirar o lado positivo de tudo (mesmo da adversidade, das prisões). Escrevia-nos cartas sempre positivas.

 

Como eram?

Eram amorosas e ternas, cheias de recomendações – para nos darmos bem, para não preocuparmos a nossa mãe e o nosso avô, que tínhamos de apoiar a mãe que estava mais fragilizada e triste. Era difícil para nós afirmarmo-nos. Tínhamos de colaborar.

 

Como é que resolvia as suas inseguranças e tristezas? Se não as podia escoar…

Com alguns amigos, alguns amigos do meu pai. Uma amiga dos meus pais, que tinha estado presa, psiquiatra, teve um papel determinante na minha vida – a Lígia Veloso. Tratava-me como adulta, (eu tinha 13 ou 14 anos), levava-me ao cinema (ver o Bergman e as Quinzenas do Bom Cinema) e dava-me livros (o Pavese, o Hemingway, a Simone de Beauvoir). Fazia um papel que os meus pais não tinham tempo [de fazer]. Escoava com ela as minhas tristezas, dúvidas, inquietações.

 

Ali, sabia-se em segurança. Senão, era uma espécie de desconfiança primordial, radical.

Claro. Tudo podia ser uma ameaça. Uma das memórias que tenho foi quando fiz o exame da quarta classe e os jornais, O Século e o Diário de Notícias, faziam uma grande coisa com isso. O meu pai estava preso e na visita seguinte disse-me: “Sabes, tu vinhas no jornal” – tinha sido apanhada numa fotografia, a fazer o exame; “Recortei a fotografia onde tu vinhas e pus na parede da minha cela”.

 

Teve a noção, como o seu pai teve em relação ao pai dele, que foi muito amada e querida? Ou, apesar desse amor, tinha a impressão de que havia uma coisa que o ocupava mais?

Tivemos a noção de ser muito amados, e ainda temos. Mas ele estava muito ocupado com outras coisas. Se calhar não senti o que ele sentiu em relação ao pai dele. Havia algo mais importante do que nós, do que o individual: era o colectivo, eram os que estavam piores do que nós, era a luta pela liberdade. Tinha aquelas coisas banais, de adolescente, de querer sair… Mas primeiro estava o dever, a luta. O resto, eram coisas fúteis.

 

Arnaldo de Matos dizia que a Revolução não era um chá dançante…

[risos]. Exactamente. Tudo o resto passava para trás.

 

Fora o distúrbio causado pela vida política do seu pai, uma parte da sua vida, com a sua mãe e avô, era banal, tinha horários regulares.

A minha mãe era muito estrita, rigorosa. Primeiro estava a escola, a rotina do trabalho diário. Impunha as regras. Muitas vezes não jantávamos à mesa com o meu pai porque ele vinha muito tarde, e havia uma rotina a cumprir.

 

Porque é que impunha essa rotina e exigência?

Foi a educação que teve. Muito dura, disciplinadora. A família dela tinha passado muitas dificuldades; o pai esteve muitas vezes preso, foi deportado, a mãe era professora primária; eram sete irmãos. Era muito exigente – acho que fez bem.

 

Em relação ao dinheiro, era-vos incutido o espírito de poupança, eram partilhadas preocupações a esse nível?

Tivemos uma infância nessa matéria privilegiada. Só sentimos preocupação com o dinheiro quando o meu pai foi para o exílio – e já éramos adultos. Havia o Colégio que fazia viver a família toda. O meu avô não fazia contas e deu-nos a ideia de que o dinheiro dava sempre. Era um ambiente protegido: havia duas empregadas em casa, o meu avô tinha motorista.

 

Que relação tinha com o mundo dos subalternos? Ou não eram olhados assim?

Eram olhados como família. O Sr. Joaquim ensinou o meu pai a guiar, e depois ensinou-me a mim e ao meu irmão. Era um homem de uma dedicação canina; o meu avô morreu e, dois meses depois, ele, sem estar doente, morreu também. As empregadas tomavam conta de nós, de um modo terno. A Olinda está em casa dos meus pais há 50 anos. É para nós uma segunda mãe.

 

Mas não podiam falar com eles sobre determinados assuntos…

Alguns estavam dentro das cumplicidades. Uma altura, o telefonista do Colégio era um homem que o meu avô considerava muito esperto, e fê-lo estudar, tirar o quinto ano do liceu (como se dizia); a minha mãe começou a suspeitar que ele tinha ligações à PIDE. Ouvia o Rádio Moscovo em altos berros à noite – uma pessoa que ouvia o Rádio Moscovo ouvia em surdina, para não ser detectado. Esse funcionário começou a namorar a empregada lá de casa, que lhe disse que era preciso guardar os jornais... Dois dias depois, o meu pai começou a queixar-se que a comida ia fria, que já não iam jornais a embrulhar os termos…

 

Que memória guarda da cadeia?

Essas idas a Caxias e ao Aljube foram muito marcantes. Lembro-me exactamente das salas, dos cheiros. Em Caxias, era uma sala com várias divisórias, para as famílias dos vários presos. O parlatório tinha um vidro e uma grade. Havia um corredor onde se passeava um guarda. E havia os cubículos onde estavam os presos, completamente fechados, sem contacto uns com os outros. Para a criança que eu era, foi muito impressionante. Era terrível ver ali o pai, e não poder tocar-lhe. A coisa pior era não haver contacto físico.

 

Tinha um diário? Não podia escrever cartas francas ao seu pai, porque essas seriam lidas.

Tinha, mas não sei que lhe fiz. Nunca mais o reli. Era um diário com uma chavinha. Mas não me confessava completamente [no diário], porque podia sempre vir alguém… O João e eu assistimos várias vezes aos pides entrarem por nossa casa e irem ver tudo. Os livros, dentro dos livros, os nossos quartos... O João tinha um mapa de Cuba em relevo e levaram-no.

 

Fica a ideia de não haver nunca a intimidade absoluta, um espaço secreto.

Exactamente. É devassado, pode ser sempre devassado.

 

Que marcas ficaram disso?

Demorou tempos a passar. Só na idade adulta… E mesmo assim: ainda hoje sou uma pessoa fechada.

 

É o medo de ser sobressaltada, surpreendida?

Sim. A seguir ao 25 de Abril foi o contrário.

 

Tudo passou a ser colectivo.

Tudo foi devassado de outra maneira. As memórias, as fotografias, as coisas todas. Isso fez-me confusão e fez-me fechar um bocado.

 

Como viveu o degredo em S. Tomé? O seu pai não sabia para o que ia. Conta que o inspector Sacchetti lhe disse: “É como quem atira uma pedra a um poço: vai fazer umas onditas, mas daqui a uns meses ninguém se lembra que existiu um advogado chamado Mário Soares”.

Lembro-me do dia em que o meu pai foi preso novamente. Ele tinha estado preso e tinha-se falado que seria deportado para a Madeira ou Açores. Quando saiu, “afinal não foi nada”. Os meus pais foram passar uns dias ao Algarve com a Sophia e o Sousa Tavares, de quem eram muito amigos, e um tio da minha mãe. Foram perseguidos pela PIDE e uma das pessoas da recepção do hotel, que tinha sido aluno do Colégio, disse: “Temos uma brigada da PIDE no quarto ao lado do vosso”. Voltaram, sempre seguidos pela PIDE, e no dia seguinte ele foi preso no escritório. Era dia 19 de Março, dia do pai. Eu tinha saído com a minha mãe para comprar uma prenda, e quando voltámos o motorista do Colégio disse: “O senhor doutor foi outra vez preso e telefonaram da PIDE para a senhora lá ir”. Era uma coisa que nunca faziam.

 

Pedirem para lá ir?

Sim. Começámos a pensar: “Agora é que é a deportação”. A minha mãe foi com o meu irmão, eu fiquei em casa a falar para os amigos do costume: o Raul Rego, o Salgado Zenha, o Zé Magalhães Godinho, o Gustavo Soromenho, o Joaquim Caetano Menezes, a Lígia Veloso, a Lígia Monteiro. Quando a minha mãe voltou, vinha desfeita. “O pai vai para S. Tomé”. Achámos todos que não o íamos voltar a ver. O meu avô tinha 89 anos – para ele era dificílimo. A minha mãe pediu que nos deixassem despedirmo-nos. Reunimos nessa noite em casa, com os amigos, e na manhã seguinte fui com a minha mãe à PIDE; tenho muito presente a conversa com o Sacchetti, que era um homem sinistro, pequenino, careca, com um bigodinho, um ar untuoso. Faziam-nos esperar imenso. O meu irmão e eu púnhamo-nos à porta para ver as caras. Uma vez vimos passar aquele que tinha sido empregado do Colégio, o Costa.

 

Como foi a despedida?

Foi o dia em que vi o meu pai mais abatido. “Bem, isto vai ser difícil, temos de nos preparar”. Mais abalado – mas não desistente. Lembro-me de o meu avô – cá está, a história de não mostrar as emoções – à saída do carro nos ter dito: “Ninguém chora”. Para uma pessoa de 15 anos a quem tiram o pai, é difícil… Cumprimos aquilo – era religioso. A despedida foi sempre na presença de um inspector da PIDE, o Abílio Pires, especialista em intelectuais. O meu pai passou umas procurações por causa do colégio. Voltámos para casa, desfeitos, tristes. E fomos despedir-nos à noite no aeroporto. Houve uma carga de pancada violenta, porque estava imensa gente, amigos e gente da oposição, a polícia de choque. A preocupação da minha mãe foi ir para S. Tomé.

 

Para tomar conta dele.

Não sabíamos como é que ele estava. Não havia telefone. Para se usar o telefone, ia-se à rádio. Passada uma semana ou 15 dias, a minha mãe foi. Ficou um mês. Um amigo de infância do meu pai era secretário da Câmara de S. Tomé e foi a pessoa que mais o apoiou; a mulher era farmacêutica e tinha a única farmácia que havia. Durante esse mês, procurou instalá-lo: alugou uma casa, pediu-nos tecidos, as coisas de que precisava, mobilou a casa… O que sempre fez, com muito amor. A minha mãe voltou com as notícias, de como aquilo era. Estava 24 sobre 24 horas um carro da PIDE à porta.

 

Enquanto isso, o seu avô tomava conta de tudo, em Lisboa.

Sim. O João achava foi a seguir [para S. Tomé] e eu fui depois dos exames do liceu. Fui para ficar. Coisa que me revoltou muito – tinha os meus amigos aqui, que é que ia fazer para S. Tomé? Os meus pais achavam que era a minha obrigação, o João também achava que eu tinha que ficar com os pais – era o lado mandão do meu irmão.

 

Ele achava que tinha de contar de si?

A primeira manifestação a que fui foi em 1967 contra a guerra do Vietname. A minha mãe tinha-nos proibido de ir – se fôssemos apanhados, isso podia ser uma pressão para o meu pai, que estava preso, uma hipótese de chantagem. Fomos a manifestação toda a discutir!, ele a mandar-me para casa, e eu a dizer “Vai tu!”. Foi o dia em que saiu A Capital, andava toda a gente com A Capital debaixo do braço.

 

O degredo do seu pai foi de nove meses. Não ficou lá, como temia.

A sorte foi que o Salazar caiu da cadeira em Setembro. Eu estava com a minha mãe na farmácia e o meu pai estava na barbearia, que era também livraria.

 

Nas cartas que lhe escrevia, nas manifestações a que ia, tinha a ideia de que devia honrar o pai, que o seu comportamento devia ser exemplar?

Sim, era-nos passado isso. Era uma grande pressão.

 

No fundo, não podia ser quem era, tinha de ser a filha do Mário Soares.

Nessa altura, o Mário Soares não era tão conhecido quanto isso. Mas era a filha do oposicionista, que tinha que honrar o ser filha de. Nada podia ser-me apontado.

 

Era a sua mãe que lhe passava essa noção? O seu pai é mais descontraído.

Sim. Mas achava que algumas coisas eram fúteis… Os amigos do meu irmão achavam que era uma futilidade gostar de uma camisola ou uma saia. Com a minha mãe, era diferente. Ela é ultra-coquette, e era cúmplice nessa matéria.

 

Apesar de ser mulher, o seu pai exigia-lhe o mesmo que exigia ao seu irmão? E se calhar por isso não dava espaço para a futilidade…

Ele tem um lado machista. Eu era a menina e a menina não podia fazer determinadas coisas. Era mais repressivo em relação a mim. O João era mais introvertido, nessa altura, e se ele não ia a uma festa, eu também não ia.

 

Mas era uma igual para discutir política, para falar das grandes questões. Tem a impressão de ele a ouvir desde sempre?

Acho que me ouve mais desde a idade adulta. A seguir ao 25 de Abril tivemos uma cumplicidade muito grande. Deixei tudo e andei dois anos a… descobrir o pai. Tinha estado quatro anos afastada, o pai estava em Paris, nós estávamos em Lisboa. Andei a fazer as campanhas eleitorais com ele, guiava o carro, andava ao lado, discutíamos as coisas todas. Habituou-se a ouvir-me. Acho que ele acha que eu sou hiper-crítica; diz que sou a pessoa que mais o critica, o contesta… Se calhar porque não o fiz no passado [risos].

 

Que decisão foi essa de largar tudo e ir atrás dele?

Acho que se não tivesse havido o 25 de Abril naqula altura, seria uma pessoa diferente. Foi o entusiasmo da Revolução. O lado inebriante daqueles dias, das revoluções permanentes. Até ao 25 de Novembro, foi uma aventura.

 

A sua aventura.

A minha aventura. Dois anos de grande aprendizagem de vida, de política. Não conhecia um partido político, por exemplo. O que me surpreendeu mais? Passar de uma fase em que tudo estava reprimido para uma fase em que tudo era possível. Aquele primeiro ano foi de total liberdade, de grande euforia. Foi uma emoção.

 

Como viveu o 25 de Abril? E a chegada do seu pai à estação de Santa Apolónia? E o 1º de Maio? Uma sucessão imparável.

O 25 de Abril: tínhamos uns zuns zuns, através do Raul Rego e do Álvaro Guerra, que estavam ligados ao militares e ao Spínola, de que estava qualquer coisa para acontecer. Há anos que estávamos à espera que acontecesse alguma coisa, mas naquela altura era mais premente, tinha saído o livro “Portugal e futuro”, etc. Estava sozinha em Lisboa com o meu irmão, a minha mãe tinha ido à Alemanha com o meu pai. Uma tia minha telefonou-nos às seis e tal da manhã a dizer que havia uma revolução. Acordei o meu irmão, tentámos ouvir o rádio e depois fomos para o jornal República, onde tudo se passava. As pessoas estavam na dúvida se deviam mandar o jornal à comissão de censura ou não… Falámos ao meu pai, ao telefone, sempre com cuidados. (Isto foi tão interiorizado que ainda hoje há coisas que não digo ao telefone…)

 

Acompanhou toda a revolução na rua, presumo.

Foi uma festa permanente As manifestações no Carmo, a libertação dos presos-políticos de Caxias. Depois, a chegada dele, no dia 28.

 

Descreva a chegada.

Fomos cilindrados. O meu irmão tentava pôr uma certa ordem, mas só o vi praticamente no carro. O meu pai foi dali para a Cova da Moura… Foi uma emoção. Acho que toda a gente chorava. Eu chorava imenso. Chorar de alegria era mais fácil. No dia seguinte fomos esperar o Cunhal. Fez-me imensa impressão: eu estava comovidíssima – o Cunhal era um mito – e ele estava completamente frio, com um olhar gélido.

 

Um balde de água frio.

Foram dez baldes de água fria, gelada! Olhávamos com fascínio para o Cunhal, tínhamos noção do que era o PC, mas havia aquela figura mítica, romântica… “Deixa cá ver, quem é este herói”.

 

O seu pai teve ciúmes dessa expectativa?

Acho que não.

 

Cunhal, o Fascismo, Eanes, Zenha, Cavaco. Foram estas as grandes figuras que contracenaram com o seu pai?

O Zenha era meu padrinho. Tinha com ele uma relação forte, de admiração, de ternura.

 

A zanga entre Salgado Zenha e o seu pai foi tremenda para si…

Foi. Foi das coisas mais tristes, esse corte com o Zenha. A última vez que o vi estava já muito doente, em casa. Era excepcional, de uma grande craveira intelectual e moral. Foi muito doloroso também para o meu pai. Acho que foi a coisa que mais o magoou. As outras pessoas de que me falou: eu já tinha uma forte consciência política e estava completamente solidária com o meu pai na confrontação com o Eanes. Nunca foi uma pessoa que me suscitasse uma especial admiração – nem o Eanes nem o Cavaco. O Cunhal, sim, era a figura mítica que vinha do passado.

 

Quando interrompe o curso de Medicina para acompanhar o seu pai, o que queria para a sua vida?

Não me perguntei o que queria para a minha vida. Queria viver intensamente o que se estava a passar em Portugal. E também era a descoberta do pai…  

 

Descoberta do pai ou do político?

Do pai. Eu tinha estado afastada do meu pai muito tempo.

 

Era crível que tivesse um percurso político? Isso ocorreu-lhe?

A mim? Não. Não tinha paciência para ter um percurso político, para pactuar com determinadas coisas. Foi um lado meu fanatizado, não pensante. Estava tão emocionalmente ligada naquilo tudo que eu própria não tinha distância.

 

O seu pai esperava de si um destino político?

Acho que esperou isso sempre do João, mas não de mim.  

 

Nem naqueles dois anos ele esperou isso de si?

Não sei se esperou, sei que gostou [riso].

 

Gostava de ter quem tomasse conta dele. Que é que aconteceu à sua mãe nesse período?

A minha mãe tinha os seus próprios percursos. Era raro irem os dois juntos. A minha mãe era candidata por Santarém, ia para todo o lado. Eu fiz de motorista, secretária, acompanhante… Foi uma época divertida.  

 

Como é que traçou o seu caminho? Como definiu a sua vida.

Tive necessidade de me ir embora. Fui para Paris estudar jornalismo, e fiquei cinco anos. Eu estava tão envolvida que me sentia indiferenciada. Foi fundamental para criar o meu espaço.  Quando voltei para Portugal, fui trabalhar para os jornais. Fiz política internacional. Depois de uns anos n’ A Capital, o meu pai decidiu candidatar-se à presidência – em 1985. Fizemos uma reunião de família, “quem é que vai ocupar-se do Colégio?”. A minha mãe achou que devia ser eu. O João não estava interessado – embora não o dissesse, acho que a ideia dele era a política. “Porquê eu?”. Mas percebi que tinha de ser, era preciso assegurar a continuidade do Colégio. Aquela escola tinha sido o sonho do meu avô.

 

O regresso ao Colégio era um modo de voltar à ligação afectiva ao seu avô.

Era. Atirei-me de cabeça. Entusiasmei-me, “é isto que quero”. Voltei à faculdade, fui estudar Psicologia. Isso ajudou-me a perceber melhor as coisas, deu-me outra segurança e preparação.

 

Era uma mulher insegura?

Era. Se calhar ainda sou [risos].

 

Era um grande peso, ser filha de Mário Soares, e tentar impor a sua identidade.

Fui sempre muito insegura nessa matéria. A relação com o meu pai foi sempre boa. Demasiado boa.

 

Nunca se zangaram?

Zangamo-nos imenso, ainda hoje. Melhor: discutimos muito. É uma relação muito apaixonada. Argumentativamente é assim na família. Discute-se tudo. Um bocadinho italiano. Somos muito parecidos de feitio, o João é mais parecido com a minha mãe. Temos um lado colérico, de gostar da vida, de tirar prazer das coisas. Ele acha que há sempre amanhã.

 

Olhou para ele, olha ainda, como sendo uma fortaleza, um castelo inexpugnável?

Acho que sim – menos, mas olho para ele assim. Sobretudo, se tiver um problema, é com ele que falo. Há uma grande cumplicidade entre nós, talvez mais do que com a minha mãe. É como todas as filhas com os pais e todos os filhos com as mães… O velho Édipo.

 

Quando decidiu candidatar-se à presidência, acompanhou o processo de perto? Tudo coincidiu com os seus 80 anos e uma festa que foi grandemente organizada por si.

Como diria o Chico Buarque, foi uma festa bonita [“Foi bonita a festa, pá”]. Ele merecia. Quando decidiu candidatar-se, fui ferozmente contra. Toda a família foi contra. Mas o que lhe dissemos foi que, se era essa a vontade, nós estaríamos incondicionalmente ao lado dele. Em família, foi sempre assim: haja o que houver, estamos ao lado. Mas antes discutimos.

 

Porque é que não quis?

Achei que ele tinha terminado um ciclo, que não fazia sentido voltar. Tenho aí opiniões muito próprias – não vou falar sobre elas.

 

Ele tem uma enorme capacidade de lidar com o fracasso. Pouco depois da derrota, deu uma entrevista relativizando imenso o sucedido.

Mas ele é assim. Deu uma lição de vida e de humildade democrática nessa campanha.

 

O que é para ele uma derrota? Qual é, aos olhos dele, o falhanço da sua vida?

Falhar seria não ter lutado por aquilo que lutou, não ter conseguido aquilo que conseguiu para o país, para o Partido Socialista. Ele está de bem com a vida por causa disso. Tem mágoa por não ter escrito mais. De não ter feito o romance que gostaria de ter feito. Gostaria de ter sido jornalista e escritor.

 

Esse destino que ele não cumpriu – escrever, ser jornalista – quis fazê-lo?

Estava de tal maneira ligada a ele, que se calhar foi isso.

 

 

Publicado orginalmente no Público em 2008

 

 

 

 

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