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Ana Lourenço

Quem é ela, quem é ela? Como se pergunta numa canção de Adriana Calcanhotto. «Eu ando pelo mundo, divertindo gente, chorando ao telefone», continua a canção. Há em Ana Lourenço a impressão de uma tristeza funda. Ela disfarça e diz que não... Ela é «aquela pivot muito gira» das noites da Sic Notícias, que é como as pessoas se referem a ela. Estreou-se nas antenas piratas da margem sul, formou-se na TSF, foi repórter parlamentar e pivot da TVI, transferiu-se e afirmou-se como presença discreta e segura da Sic Notícias. Teve uma passagem fugaz pelos bancos de Antropologia, é apaixonada por cavalos. Casou muito jovem e tem uma filha de oito anos. O que é que se sabe dela? 

 

O público tem de si uma imagem serena, misteriosa, triste. Revê-se nesta imagem?

Aquele olhar triste não quer dizer aquilo que as pessoas pensam que quer dizer... Aquele olhar triste quer dizer que não estou confortável, que estou insegura.

 

O que é que a desconforta na televisão?

Os momentos de preocupação têm sempre que ver com entrevistas. O meu maior medo é perceber-se que não estou preparada. “E se ele agora disser qualquer coisa e eu não souber do que está a falar?” Quando estou a preparar a entrevista, começo a formular perguntas, a imaginar respostas... O que me acontece sempre é levar um excesso de perguntas! Em 99% das vezes não faço mais do que a primeira pergunta que programei. Mas depois pergunto-me: «Já devia ter feito a pergunta?», «Vou fazer fora de tempo?», «Vai parecer que estou distraída?».

 

É insegura desde sempre?

Desde sempre. Raras vezes olho para um trabalho meu e digo que está pronto para ir para o ar. Se calhar por isso é que é tão confortável ser pivot: porque já está no ar, já não há nada a fazer, e isso baixa o meu nível de angústia.


Tem uma beleza misteriosa. Teve sempre a noção de que era especialmente bonita?

Não. Vivi a minha adolescência a esconder-me atrás de uma longa cabeleira encaracolada. Não tenho fotografias da minha adolescência além das fotografias tipo passe! Sofri muito quando comecei a ver as gravações, de forma quase doentia, a parar naquele frame em que fazia um esgar...

 

Também podia dar-se o caso de querer afirmar-se pelo intelecto, pela competência, e, por isso, recusar a feminilidade.

Eu vivi de preto durante uns quantos anos. Era eu que fazia a maior parte da minha roupa na adolescência, pela Burda. A minha mãe tinha uma máquina de tricotar, e fazia umas saias compridas, uns casacos compridos... Porque não gostava das pernas, os pés eram grandes demais, os joelhos encostavam um ao outro, a anca era larga. Não me sentia confortável. A adolescência foi passada entre o meu quarto e a escola.

 

Na margem sul?

No Pragal, em Almada. Tive uma única amiga, a Filipa, com quem mantenho um contacto distante, esporádico. Passávamos a manhã na escola, a tarde ao telefone. Na altura, as chamadas locais eram só de um período! Eu era uma aluna mediana, esforçada, nunca fui brilhante.

 

Foi na adolescência que se determinou a sua vida?

A rádio apareceu por volta dos 14 anos... Apareceu mais cedo, aos 11. Aos 11 parti uma perna a apanhar caracóis, e fui a Lisboa fazer radiografias com o meu pai. (O meu pai era realizador de programas literários na Antena 2). Nos estúdios da Rua de S. Marçal li o «Dó, Ré, Mi», do Tagore, num programa infantil. Passei a semana inteira à espera das seis da tarde de sábado para ouvir a gravação! Ainda colaborei em mais meia dúzia de programas e o meu pai percebeu que aquilo estava a tornar-se obsessivo. Disse-me: «Não, não, tens 11 anos, vais estudar». Eu já não pensava noutra coisa. E no período de expansão das rádios locais colaborei em algumas. Gostava daquele ambiente, gostava do microfone.

 

Por que é que aquilo era excitante?

Lembro-me da sensação de poder que tinha ao microfone, da autonomia, de ser eu a decidir as coisas. Sentia-me grande. Entretanto continuava perdidíssima! Escolhi Sociologia ao calhas e não entrei na faculdade. Até que soube do terceiro curso de formação da TSF, que já era, para quem gostava de rádio, «a rádio» e «a redacção». Foi durante o curso da TSF que decidi que queria ser jornalista.

 

Aos 18 anos. A rádio foi a sua primeira grande paixão?

Pelo caminho, houve outra coisa: os cavalos. Desde muito nova que sonho com cavalos. Via-me a ter um cavalo arrumado cá em baixo no prédio, a ir para a escola no cavalo, a deixá-lo à porta. Na adolescência fiz umas escapadelas por conta própria para andar a cavalo perto da Costa da Caparica. Era uma coisa um bocadinho cara... Fazia trabalhos para ganhar dinheiro. Cosia malhas e bordava.

 

Sabia cerzir, fazer essas coisas complicadas?

Cerzia, as camisolas eram cerzidas. Cosi centenas de pares de caneleiras para juntar dinheiro e fazer as minhas aulas de equitação. Às vezes ia a pé para a Costa – ainda são uns quilómetros, do centro de Almada.

 

Consegue descrever o que sente quando monta?

Tinha uma sensação de enorme poder. Estar em cima de um animal que é muito maior do que eu e que me obedece. Gostava disso, e gostava muito do toque, de fazer festas no cavalo. Hoje é um reset no sistema. Dá-me muita tranquilidade, muita paz. Aos 18 anos comecei a trabalhar na TSF, fiz seis meses de Antropologia e houve um dia em que não consegui acordar: não voltei, não acabei o curso.

 

Contudo, a sua vida estava só aparentemente decidida...

Foi. Eu saí da TSF numa sexta-feira, comecei a trabalhar na TVI numa segunda, em Outubro de 94. Foi uma passagem que teve que ver, apenas, com problemas graves que a TSF atravessava. A saída do [Emídio] Rangel deixou a TSF com problemas financeiros graves, foram despedidas muitas pessoas e o ambiente não era muito agradável. Eu era muito miúda e aquilo pesava-me muito. Eu vivia na TSF..., ia a casa tomar banho e às vezes dormir um bocadinho.

 

Convidaram-na para ir para a TVI?

Na altura fui eu que dei o passo. O Artur Albarran já me tinha convidado dois ou três anos antes para a RTP. Eu agradeci imenso, mas disse: «Não gosto de televisão, a minha paixão é a rádio».

 

O que é que a fez mudar de ideias?

Foi uma decisão de uma noite. Aquele ambiente era muito triste, a equipa tinha-se partido. Liguei para a TVI, consegui falar com o Artur Albarran, eram quase duas da manhã! «Lembra-se de mim?», «Já queres fazer televisão? Então vem cá amanhã falar comigo». Estive lá seis anos. Aí fiquei vacinada com despedimentos, com processos financeiros difíceis...

 

Lembro-me de si, na TVI, com o cabelo curtinho, à rapaz. Não consigo imaginar como é que passou dos caracóis, da cabeleira indomável, para esse corte de cabelo...

Aquele cabelo era a minha protecção de há muitos anos. Mas tinha um ar muito desarrumado, muito despenteado, era uma angústia!, achava-me muito feia, muito pouco sofisticada. Desleixada: era esse o ar que achava que tinha. Por isso é que a pessoa mais importante para a minha imagem foi o Patrick [cabeleireiro]. Eu tinha muitos pruridos em viver momentos de vaidade... Usei batom vermelho pela primeira vez na Sic Notícias, por exemplo.

 

É aquela ideia de que a jornalista não deve ser sensual?, se for sensual não a levam a sério?

Exactamente. O Patrick inventava cortes de cabelo, conquistou a minha confiança, pôs-me a dizer: «Eu assim fico gira». A importância que isso teve no meu dia-a-dia! Corto o cabelo com o Patrick há dez anos, e se ele for viver para Singapura, vamos ter de encontrar-nos a meio caminho! 

Quando fui para a equipa calçava botas Doc Martens, andava sempre de calças de ganga, t-shirt, casaco de penas. Era trágico de cada vez que ia fazer um directo porque me vestia muito mal! Quando estava na rádio, olhava para as repórteres da RTP que andavam na rua e achava que pareciam pivots, maquilhadas, de cabelo esticado! Fui para a televisão a dizer «Aquilo, nunca. Eu sou repórter, não ando para aí pintada». O Patrick deu-me essa liberdade: de me sentir bonita. Agora estamos a fazer o processo contrário, estamos a deixar crescer o cabelo.

 

Já não precisa de se esconder?

Ganhei segurança.

 

E é muito grande...

Eu uso saltos muito altos! Por volta dos 13, 14 anos, era muito grande, era maior que muitos rapazes. Era um bocado matulona, calçava o 40 e tinha vergonha. Cheguei a mandar fazer sapatos! Imagine-se o que era andar em reportagem, com um Marantz que pesava três ou quatro quilos e um telemóvel que parecia uma caixa de Skip? Imagine-se o que é um sapatinho de senhora, aquele modelo da TAP, a fazer reportagem com aquele equipamento às costas?

 

Que características de então preserva e que são dominantes em si?

Esta pergunta é muito difícil.

 

Estivemos a olhar no espelho e a ver o físico; agora gostava de atentar noutros aspectos.

Nunca pensei nisto assim, nunca fiz este exercício. [pausa] O que se mantém é a curiosidade. É o que me faz mexer todos os dias em coisas novas, aprender todos os dias. Acho que é isso que me faz, ainda hoje, gostar muito da minha profissão, seja a apresentar, seja na rua a fazer jornalismo. Essa é a característica que consigo rentabilizar mais. Hoje sinto-me mais segura do que há dez anos. Mas é pesada a responsabilidade de ser a cara do produto de uma equipa imensa. Não sentia esse peso nos tempos da TSF: achava que tinha uma margem para errar muito maior. Hoje quase não me dou margem nenhuma.

 

É impiedosa consigo?

Sou. Do género de ter ficado aqui até às quatro da manhã porque cometi um erro grosseiro no Jornal de Sábado! Não sou capaz de ir para casa, jantar com o meu marido, (mesmo que tenha muitas saudades, mesmo que quase não o veja durante a semana por causa dos horários trocados que temos), porque sei que não vou estar verdadeiramente com ele. Aquilo vai estar como a mosca que diz Sic Notícias, lá em cima, no ecrã, vai estar sempre na minha cabeça.

 

É a noção de vergonha?

É. Quando dizia que tenho muito medo de falhar, tenho muita vergonha de falhar. Há um episódio da minha infância que me ocorre com muita frequência: tive uma vez 98% num teste de inglês e fui mostrar aquilo muito orgulhosa ao meu pai. E o meu pai perguntou-me se não tinha tido tempo para estudar o resto. De facto, eu não fazia mais nada na vida, não havia razão para ter dado aquele erro gramatical. «Estás muito contente, mas a verdade é que podias ter tido 100%». E isto seguiu-me a vida toda, segue-me todos os dias.

 

Não é nunca suficiente?

Não é nunca suficiente. Há falhas que não me incomodam tanto: quando troco uma palavra porque estou mais cansada e fico disléxica ou a palavra não é fácil de articular e a língua enrola-se. O erro de forma é mais aceitável, o erro de conteúdo é inaceitável. De facto, não há razão nenhuma para o dar. Antes de entrar no ar estou cinco horas na redacção. A experiência que a Sic Notícias me deu justifica cada vez menos o erro. Quanto mais se evolui, menos razão há para se cometer o erro

 

Voltando atrás: o que mantém é a curiosidade. E que mais?

A vontade de ser perfeita. [risos]

 

Quando é que se permite a libertação? É com a sua filha, com os cavalos?

Não sou sempre chata! Agora monto, às duas da tarde, todos os dias. Disciplinei-me. E vou no carro e vou a cantar aos gritos. O carro é o meu espaço. O meu marido já me cedeu o lugar de condutor. A maior parte das vezes, quando estamos juntos, quem conduz sou eu. Se sair chateada da Sic, se sair aborrecida comigo, faço mais uns quilómetros, ando, ando. E vou sempre a cantar. Com a minha filha liberto-me imenso. A Joana é muito divertida e muito exigente, desconcerta-me, não vale a pena estar a fazer número, ela apanha-me na curva.

 

Foi mãe aos 24 anos. Porque é que decidiu ter um filho?

Não decidi: engravidei.

 

Tinha casado dois anos antes, com o namorado de sempre. Tem uma vida calma. Ainda não consegui perceber quais são os excessos, os espaços onde se permite o erro, o descontrolo.

Durante muito tempo foi nas compras. O que, graças a Deus, foi uma coisa que resolvi. Entrava em perfumarias e gastava obscenidades! Sentia-me muito aliviada. Comprava perfumes, cremes, maquilhagem, que na maior parte das vezes não usava. Comprava porque a embalagem era bonita, porque ainda não tinha aquele. Depois eram os sapatos, os óculos. Numa atitude perfeitamente idiota e consumista, se estava com a telha, ia para um centro comercial ver montras e comprar. Gosto de sair de vez em quando, embora já não aguente discotecas. E sabe-me bem ir para a praia a pé, descalça na areia.

 

É solitária?

Sou. Queixo-me imenso dos horários, que não consigo estar com a família. Mas depois sabem-me muito bem os momentos em que estou sozinha. Chegar a casa, vê-los a dormir, ir dar um beijinho na bochecha morna da Joana e o Carlos perguntar se a viagem correu bem... No dia seguinte acordo sozinha, também... Aquilo é confortável. Mesmo tendo muito défice deles. Porque depois estou aqui e tenho saudades, de estarmos os três, de contar uma história à Joana.

 

Quando é que está com a Joana?

Vejo a Joana quando ela acorda (às vezes), nos meus dias de folga, e ao sábado de manhã vamos montar as duas.

 

O seu pai vê-a em antena? Acha que para ele já é suficiente ou está ainda a dois pontos da perfeição?

Ele é muito crítico. Quase não falamos de trabalho. Almoço todos os domingos em casa dos meus pais, a minha mãe reúne a família toda.

 

Defina família.

São as pessoas de quem gosto muito. O meu pai é muito crítico em relação ao trabalho dos jornalistas, «Não sei quem não cumpriu a regra número 135 da gramática». O fim-de-semana é para falarmos da Joana, de cavalos, do que cada um fez durante a semana. A Sic fica de fora, fica em Carnaxide.

 

Tem 32 anos, trabalha desde os 18 anos. O que poderá ser o seu futuro? Imagine um cenário para si.

É muito difícil. Não gosto nada de tomar decisões. Quando preciso de uma mudança, confronto a direcção com a minha necessidade de mudar. Geralmente fico à espera que me digam o que é que é para fazer a seguir.

 

Que apontem caminho.

Que apontem caminho.

 

Mas isso não é contraditório com o facto de gostar de ter poder sobre o seu cubículo, sobre a situação em que está?

Sim, mas se for eu a escolher o caminho e falhar... Tenho que me mandar da Ponte 25 de Abril abaixo! Assim, se me disserem «Vai por ali», vou só provar que sou capaz.

 

De onde é que vem esse pânico da escolha?

É sobretudo [o medo] de não estar à altura.

 

Já fez más escolhas?

Não. Saí da TSF para a TVI, e a experiência correu bem, e saí da TVI para a Sic Notícias. Tenho tido até sorte, nos momentos em que decido fazer a escolha. Não quero é ter de carregar o peso de uma má decisão.

 

Não quer tomar a vida em mãos? No sentido de ela ter o caminho que escolhe para si?

Passo dias a pesar prós e a pesar contras. E depois, quando estou estourada, decido a primeira coisa que me vem à cabeça: de coração.

 

E se se apaixonasse de caixão à cova? Acha isso possível?

Nunca aconteceu. É preciso domesticar as angústias, também. Acho que domestico quase tudo bem. Tem uma factura....

 

Tem uma Filipa, uma melhor amiga a quem se mostra completamente e com quem partilha?

O meu marido. Mas já tenho mais relações de amizade no emprego do que era costume. Saí de dois empregos e não ficou ninguém a quem ligue a desejar um Feliz Natal ­– também não ficou ninguém com quem não me queira cruzar. Hoje já tenho pessoas a quem ligo de vez em quando a partilhar uma irritação qualquer, a pedir uma opinião. O Carlos é a pessoa que me conhece do avesso.

 

 

 

Publicado originalmente na Revista Selecções do Reader’s Digest em 2005

 

 

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